O mito da perfeição

Um dos consulentes de minha coluna em VEJA.com conta que se esforçou a vida inteira para ser o melhor dos filhos, o irmão mais querido, o namorado perfeito, o funcionário exemplar, o chefe compreensivo, o amigo de todas as horas – mas que se deu conta de só ter se comportado dessa maneira para satisfazer o desejo do outro e, assim, ser adorado e se sentir superior. Ou seja, por egoísmo.

Como não poderia deixar de ser, o desejo do outro e o dele nem sempre coincidem. Dessa forma, casou-se há oito anos por causa de uma gravidez inesperada e é pai de três filhos. Hoje não tem afinidade nenhuma com a mulher, gostaria de se separar dela e não ousa. Tem pavor de ser reprovado. Quando teve uma amante e quase foi pego em flagrante, chegou a pensar em suicídio. Sabe, contudo, que precisa aprender a decepcionar os outros para viver.

A história tanto surpreende pela clareza do consulente em relação à própria vida quanto pela impossibilidade de mudá-la. Apesar da consciência clara, ele está paralisado pelo medo da reprovação. Para saber o motivo, necessita de uma consciência nova, que só a psicanálise propicia – pois é por meio da fala, e apenas dela, que a pessoa se expõe ao seu próprio inconsciente e àquilo que ele pode revelar.

O consulente mostra quão limitada é a consciência reflexiva do dia a dia quando se trata do conhecimento da própria subjetividade. Precisamente por causa desse limite, a psicanálise substituiu o “Penso, logo existo”, da filosofia de Descartes, pelo “Digo, logo existo”. Com isso, ela enfatiza a importância do discurso para a autopercepção. Não é fácil aceitar o “Digo, logo existo”, porque tanto a palavra nos escapa quanto tentamos fugir dela, fato de que a língua dá conta com vários provérbios. Entre eles, “O silêncio é de ouro” ou “O peixe morre pela boca”.

O inconsciente, porém, faz e fala por nós. E, também disso, a língua dá conta com a frase “Ninguém é perfeito”. Se atentássemos para o que a língua ensina em alguns de seus clichês, sofreríamos menos porque aceitaríamos a possibilidade de falhar. Em vez disso, como o consulente, nós insistimos no mito da perfeição. Caímos continuamente nessa armadilha do nosso imaginário, ao contrário de Sigmund Freud, o criador da psicanálise. Por ter aceito a imperfeição da condição humana, e ter se debruçado sobre essa realidade, ele abriu um caminho verdadeiramente novo e nos legou a possibilidade de nos curarmos de nós mesmos

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: